quarta-feira, 9 de junho de 2021

A guerra do futuro e a contenção do “dragão”

 

Ten Cel Daniel Mendes Aguiar

Analisando o cenário mundial no horizonte 2030-40, as agências dos EUA e do Reino Unido evidenciam quatro macrotendências (MT). A MT tecnológica, que indica a expansão da Quarta Revolução Industrial, integrando tecnologias/serviços globais e diminuindo as diferenças culturais. A MT populacional, que estima que, até 2030, a população mundial atingirá oito bilhões de pessoas, alavancada pela Índia e China. Como consequência, a terceira MT é a ambiental, que prevê a escassez de água e alimentos, além de indicar que a China aumentará a sua demanda energética em 40%, tornando-se o maior consumidor mundial de petróleo, enquanto a Índia demandará aço e carvão em larga escala. Fruto disso, a quarta MT é a econômica, que aponta a internacionalização definitiva dos mercados e o deslocamento do centro econômico mundial para o Oriente, com ênfase na região do Indo-Pacífico.

Observando a China, até os anos 1970, o “dragão” priorizava uma estratégia de defesa voltada para a sua massa continental. Contudo, a partir de 1978, com a política desenvolvimentista de Deng Xiaoping, as áreas litorâneas foram priorizadas e se tornaram hubs comerciais cruciais para a ascensão chinesa. Como resultado, a estratégia de defesa chinesa se voltou para o mar, avançando para uma Offshore Defense, que inclui a construção de ilhas artificiais. Desde então, Pequim tem promovido uma simbiose entre um regime comunista e um sistema econômico de contorno capitalista e, assim, persegue o “sonho chinês” de liderar o Oriente e ampliar a sua influência mundial.

Para isso, o “dragão” anula o ideário democrático e adota a abordagem da “Guerra Irrestrita”, uma espécie de versão oriental do pensamento maquiavélico de que “os fins justificam os meios”. Tal abordagem é materializada pela “Guerra dos 3 Métodos”, conceito que enfatiza ações não militares, integrando a judicialização nas arenas internacionais, a modelagem da opinião pública e a pressão psicológica.

Desta forma, a China tem atuado, tanto na sua esfera de influência direta, caso das disputas geopolíticas com Taiwan e Hong Kong, quanto no seu entorno estratégico. No Leste Asiático, tem ativado disputas político-territoriais com a Indonésia, a Coreia do Sul e o Japão. Na Ásia Meridional, tem deflagrado escaramuças territoriais com a Índia e o Nepal. Em particular, o Paquistão cedeu à pressão da China e acolheu a construção de uma rodovia para o acesso chinês ao Índico e o desenvolvimento da chamada nova “Rota da Seda”.

Atento a esta realidade, em 2017, o ex-Presidente dos EUA, Donald Trump,  assinou a nova Estratégia de Segurança dos EUA, que passou a comunicar, em primeiro plano, a China, a Rússia, o Irã e  a Coreia do Norte como ameaças potenciais aos EUA e seus aliados. Desde então, o principal enfoque estratégico americano deixou de ser o Oriente Médio e passou a ser o Indo-Pacífico. Avançando, Washington abandonou a estratégia de “soma-zero”, que adotava com a China, e passou a construir uma estratégia para “decapitar o dragão”.

Atualmente, a competição China versus EUA vem recrudescendo em todos os campos do poder, ilustrada, na esfera econômica e tecnológica, pela questão do 5G e consequente disputa pelo controle da dimensão informacional. Em um horizonte próximo, tal competição pode transbordar para o campo militar, fazendo que a “guerra do futuro” seja travada pelo domínio da região do Indo-Pacífico. Neste sentido, ambos os lados estão atentos ao “camaleão”, face mutável da guerra, como indicava Clausewitz, e já atualizam as suas estratégias militares para dar conta desta hipótese.

A China adota uma estratégia de expansão, no âmbito regional, e defensiva com relação aos EUA. O objetivo é negar o acesso ao Mar da China Oriental e Meridional às forças dos EUA e, assim, controlar a porção ocidental do Pacífico. Para isso, o método chinês se baseia no conceito de anti-access/area denial (A2/AD). Tal conceito é materializado por duas linhas imaginárias formadas por cadeias de ilhas (ver mapa). A linha mais próxima do continente estende-se ao longo do litoral da Malásia, de Taiwan e de porções insulares do Sul do Japão, delimitando a área a ser negada. A linha mais afastada do continente projeta-se ao longo do litoral da Indonésia, de Guam e  da porção central do Japão, delimitando a área de antiacesso.

Nesse esforço, o “dragão” concentra seus meios em três camadas. No continente, desdobra os componentes terrestre e aéreo, além dos principais comandos estratégicos – o de mísseis balísticos/nucleares e o espacial. Entre o continente e a linha de ilhas mais próxima, opera um componente naval, centrado em submarinos convencionais e mísseis balísticos de curto alcance, apoiado por uma esquadra centrada em porta-aviões. Entre a linha mais próxima e a mais afastada, desdobra um componente naval, centrado em submarinos nucleares e mísseis balísticos de longo alcance, apoiado por uma esquadra composta por fragatas de última geração.

Por seu turno, os EUA adotam uma estratégia preemptiva, com o objetivo de impedir que a China expanda o seu domínio no Pacífico Ocidental, enfatizando que as águas internacionais do Mar da China Oriental e Meridional são Global Commons e não dependem de consentimento chinês para o seu uso. Para isso, o método americano se baseia no conceito de Joint Access Maneuver for Global Commons (JAM-GC). Tal conceito adota duas linhas imaginárias, parecidas com as chinesas (ver mapa). A diferença reside na presença de bases militares americanas que facilitam a projeção para o acesso de área. Na linha mais afastada do continente, os EUA contam com as bases em Guam e no Japão. Já na linha mais próxima ao continente, contam com as bases na Coreia do Sul e em Okinawa.

Nesse esforço, os meios americanos, centrados no Comando Indo-Pacífico, têm o potencial de se expandir em combinação com forças aliadas do Leste Asiático. Em particular, os EUA consideram que a China terá a capacidade de contestar as suas forças em todos os domínios (marítimo, aéreo, terrestre, cibernético, espacial e humano), demandando a condução de Multi-Domain Operations (MDO), sob a égide de um esforço combinado e conjunto para viabilizar a manobra de acesso de área.

À guisa de conclusão, estima-se o acirramento das disputas geopolíticas no Leste Asiático, com ênfase nas porções insulares do Pacífico Ocidental. Ainda, vislumbra-se a polarização das relações internacionais na região, instigando o realinhamento de alianças militares e uma corrida armamentista. Finalmente, infere-se que o mundo poderá ser abarcado por uma nova “Guerra Fria”, agora entre China e EUA e, ainda, possa voltar a se assombrado por um conflito armado de alcance mundial.

Mapa - Perspectivas geoestratégicas dos EUA e da China


Fonte: Defense News. Asia Pacific. Powers Jockey for Pacific Island Chain Influence. By Christopher P. Cavas. February 1, 2016. Disponível em: https://www.defensenews.com/global/asia-pacific/2016/02/01/ powers-jockey-for-pacific-island-chain-influence/

Sobre o autor

Atualmente, o Tenente-Coronel Daniel Aguiar é o Comandante do Curso de Cavalaria da ESAO. Anteriormente, no biênio 2019-2020, realizou o curso do idioma coreano e, em prosseguimento, realizou o curso de Comando e Estado-Maior Conjunto no âmbito das Forças Armadas da Coreia do Sul. Ainda, foi instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (2018) e Comandante do 10º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado (2014-2015). Nas lides das operações de paz, desempenhou as funções de Observador Militar e Oficial de Treinamento/Proteção de Civis, no âmbito da Missão das Nações Unidas no Sudão e no Sudão do Sul (2011-2012). Ademais, é Doutor em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos/ECEME.



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