Por Potira Baré
( Etnia Baré) supervisionado por Diana Maia
jornalismoimparcial@gmail.com
A universidade pública brasileira, historicamente um reduto de elites,
começou a mudar de cor e de sotaque nas últimas décadas. No entanto, junto com
o avanço da representatividade, surgiu uma sombra que ameaça a integridade das
ações afirmativas: o oportunismo
acadêmico. Para os profissionais indígenas já formados em instituições
federais, a fraude em cotas não é um "jeitinho", é uma usurpação do direito à
intelectualidade originária.
A Ciência sob Ataque do Oportunismo
Um acadêmico indígena, seja ele um mestre em Antropologia, um médico ou
um engenheiro carrega consigo a responsabilidade de traduzir saberes. Quando um
não-indígena utiliza uma cota de forma fraudulenta, ele não está apenas
ocupando uma cadeira; ele está impedindo que um projeto de interculturalidade se
concretize e um sonho é morto. Nós indígenas, não precisamos provar nada a
ninguém, somos um povo, com mais de 300 anos de resistência
documentada na região amazônica, levando conhecimento lutando para que a
nossa história não seja apagada na selva de pedra.
"A universidade precisa do nosso pensamento para deixar de ser
eurocêntrica", afirmam coletivos de egressos. A fraude silencia essa
possibilidade. O fraudador entra na universidade com o privilégio da base
educacional urbana e branca, mas utiliza a "máscara da
ancestralidade" apenas para garantir o diploma, sem qualquer compromisso
com o retorno social às comunidades. _ Como fica a saúde do nosso povo? Onde
estão os engenheiros para criar projetos, Ocas com infraestrutura, para os
nosso anciãos, por vezes esquecidos que lutam e resistem para não serem dizimados, com o avanço da tecnologia, disfarçada de boas políticas, nossas terras são tomadas, o berço esplêndido da Floresta, o começo da vida.
O "Índio de Papel" e o Egresso de Luta
A diferença entre o
beneficiário legítimo e o oportunista torna-se evidente no pós-formatura.
O Egresso Legítimo: Atua como
ponte. Leva o Direito para a defesa do território, a Medicina para o cuidado
intercultural e a Pedagogia para o fortalecimento das línguas maternas.
O Fraudador: Utiliza o
título para benefício puramente individual, muitas vezes em cargos públicos
onde a cota indígena serviu apenas como um atalho na concorrência, sem nunca
ter sofrido o racismo ou a exclusão que a lei visa mitigar.
A Vigilância dos Pares: O Papel das Federais
Acadêmicos formados em universidades
federais têm sido as vozes mais ativas na cobrança por comissões de
heteroidentificação rigorosas. Eles entendem que o ambiente acadêmico é um
espaço de poder.
"Nós lutamos para entrar, lutamos para
permanecer sem auxílio e lutamos para sermos ouvidos. Ver alguém ocupar esse
espaço por pura conveniência é ver o nosso esforço coletivo ser menosprezado
pelo sistema", relatam lideranças estudantis.
Conclusão: Por uma Universidade Plural, não
Oportunista
O clamor que sai das aldeias e ecoa nos
conselhos universitários é por ética identitária. A vaga de cota indígena
é um instrumento de soberania. Acadêmicos que já passaram pelo sistema federal
reforçam: a ancestralidade não pode ser um item de currículo ativado apenas no
momento da inscrição. A universidade só será verdadeiramente federal e
democrática quando as vagas destinadas aos povos originários forem ocupadas por
quem, de fato, carrega o peso e a honra de sua história. Oportunismo é o avesso
da ciência; é a manutenção de privilégios sob uma nova roupagem. O que
define o pertencimento para egressos indígenas?
Autoatribuição: O indivíduo se
reconhece como parte de um povo.
Heteroatribuição: O povo e a comunidade
reconhecem o indivíduo como seu.
Trajetória de Luta: A vivência das
problemáticas e da cultura indígena de forma contínua, e não episódica.
Este fechamento traz o contraste necessário:
enquanto o oportunista usa a "ancestralidade de papel" para subir
degraus, a mulher indígena real é barrada pela falta de papéis que comprovem
sua existência para o Estado.
A Invisibilidade das Guerreiras Urbanas
Enquanto o oportunismo acadêmico floresce em
gabinetes refrigerados, uma realidade silenciosa e dolorosa acontece nas
periferias das grandes cidades. São as mulheres indígenas que, forçadas pela
migração, pela busca de sobrevivência ou pela expulsão de seus territórios,
vivem um duplo apagamento. Ao cruzarem a fronteira entre a aldeia e a cidade,
muitas perdem o acesso a direitos básicos, tornando-se invisíveis para as
políticas públicas. Somos julgadas com termos pejorativos, "não somos sem terra".
Para essas mulheres, a faculdade representa
o sonho da emancipação e a chance de levar voz ao seu povo. No entanto, o
caminho é obstruído por uma burocracia estatal que ignora a fluidez da vida
indígena. Muitas dessas estudantes, embora carreguem no rosto e na alma a marca
de seus ancestrais, são barradas nos processos de cota por não possuírem
o RANI (Registro Administrativo de Nascimento Indígena).
O RANI como Grade, não como Ponte
Atualmente, a centralização da emissão deste
documento pela Funai cria um gargalo perverso. Sem o registro, a mulher
indígena em contexto urbano é empurrada para a vala comum da "parda"
ou "negra" pelo sistema, perdendo o direito de ocupar a vaga que foi
pensada para ela.
"É uma contradição cruel: o Estado
exige um papel que ele mesmo dificulta entregar, enquanto fecha os olhos para
quem falsifica identidades com facilidade nas redes sociais", desabafam
acadêmicas que acompanham esses casos.
Essa barreira documental pune justamente
quem mais sofreu com o processo de desterritorialização. Sem o suporte da
aldeia próxima e sem o reconhecimento formal do Estado, essas mulheres
enfrentam a universidade federal em condições de extrema vulnerabilidade,
muitas vezes desistindo do curso por falta de auxílio-permanência — um recurso
que, por ironia do destino, acaba sendo drenado por aqueles que fraudam o sistema.
Conclusão: Um Direito de Sangue e História, Não de Burocracia
O "Clamor das
Aldeias" é, portanto, um grito por justiça e por humanidade. Combater o
oportunismo acadêmico é também lutar para que a burocracia não seja uma arma de
exclusão contra as mulheres indígenas urbanas. A universidade federal só
cumprirá seu papel social quando a vaga de cota for protegida contra os que a
veem como um atalho e garantida para aquelas que, mesmo sem o selo imediato da
Funai, resistem e preservam a identidade originária em meio ao asfalto. A vaga
pertence a quem tem história para contar, e não a quem tem apenas um interesse
a defender. O oportunismo não pode vencer a ancestralidade.
Sobre a etnia Baré
Falar sobre os Baré é mergulhar em uma história de muita resiliência
e transformação no coração da Amazônia. Eles são um dos povos mais emblemáticos
da região do Alto Rio Negro e do Rio Xié, no Amazonas, além de estarem
presentes também na Venezuela e Colômbia.
No Brasil, a maior concentração está no
município de São Gabriel da
Cachoeira, conhecido por ser a cidade mais indígena do país.
No Brasil, estima-se que existam cerca de 11.000
a 12.000 Baré (segundo dados da Funasa e ISA).
Em São Gabriel da Cachoeira: A grande
maioria dessa população vive neste município. Embora não haja um número
"fechado" apenas para a zona urbana, os Baré são uma das etnias mais
populosas da região, dividindo o território com os Tukano e os Baniwa.
Em São Gabriel, mais de 90% da população (cerca de 48 mil dos 51 mil habitantes, conforme o Censo 2022) se autodeclara indígena. A presença Baré é sentida em dois "ambientes" principais:
Sede Urbana: Muitos Baré vivem
hoje no núcleo urbano de São Gabriel da Cachoeira, ocupando cargos públicos,
atuando no comércio e na liderança de movimentos indígenas (como a FOIRN).
Calha do Rio Negro e Rio Xié: Eles dominam extensas áreas rurais ao longo desses rios, onde mantêm suas comunidades tradicionais e o cultivo da mandioca.
Por que os números variam? É comum encontrar variações nos dados por dois motivos:
Trânsito constante: Muitos
indígenas Baré mantêm uma casa na cidade e outra na comunidade (sítio),
circulando entre as duas conforme a época do ano ou a necessidade de serviços.
Identidade: Por muito tempo,
os Baré foram considerados "índios integrados" (devido à perda da
língua original), o que fazia com que alguns não se declarassem nos censos
antigos. Hoje, há um forte movimento de reafirmação étnica, o que faz os
números subirem a cada novo levantamento.
Historicamente, os Baré pertencem à família
linguística Aruak. No entanto,
a história deles é marcada por um processo intenso de contato.
A Língua Geral (Nheengatu):
Devido à influência das missões jesuítas e do período colonial, a maioria dos
Baré deixou de falar sua língua original e passou a adotar o Nheengatu (uma língua
derivada do tupi antigo que se tornou a "língua franca" da Amazônia
por séculos).
Identidade Forte:
Mesmo com a mudança na língua, eles mantêm uma identidade cultural indígena
muito viva, preservando rituais, conhecimentos sobre a floresta e sistemas de
organização social.
Os Baré são mestres na adaptação ao
ecossistema de "águas pretas" do Rio Negro, que é um ambiente de
poucos nutrientes.
A base da
alimentação é a mandioca,
cultivada em roças circulares. Eles possuem um conhecimento milenar sobre as
variedades de mandioca e o processamento da farinha e do beiju. São exímios
pescadores e conhecedores das frutas silvestres da época. Produzem cestarias e utensílios de madeira que
são verdadeiras obras de arte, muitas vezes utilizando fibras naturais como o
tucum e o arumã.
Infelizmente, os
Baré sofreram muito durante o ciclo da borracha e com o sistema de
"aviamento" (uma forma de exploração por dívidas imposta pelos
patrões seringueiros).
Nota: Esse período
histórico quase desestruturou sua organização social, mas o povo Baré conseguiu
se reorganizar politicamente nas últimas décadas, sendo hoje uma voz ativa no
movimento indígena do Rio Negro.
Sobre Potira Baré
Natural da terra mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira ( cabeça do cachorro), Ahuakuoufeng Melgueiro Rossi, da etnia Baré, é Pedagoga formada pela Universidade do Estado da Bahia ( UNEB) e Especialista em educação a distância pela UNICID, Graduanda em Enfermagem. Aluna de violino do conservatório Lourenzo Fernandez e artesã . Mãe de Hernan e Maya. Casada com Douglas Rossi.






