quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Vaga que Não te Pertence: O Clamor das Aldeias contra o Oportunismo Acadêmico

 A Invisibilidade das Guerreiras Urbanas, 
Salve, Parente!

Por Potira Baré ( Etnia Baré) supervisionado por Diana Maia
jornalismoimparcial@gmail.com

A universidade pública brasileira, historicamente um reduto de elites, começou a mudar de cor e de sotaque nas últimas décadas. No entanto, junto com o avanço da representatividade, surgiu uma sombra que ameaça a integridade das ações afirmativas: o oportunismo acadêmico. Para os profissionais indígenas já formados em instituições federais, a fraude em cotas não é um "jeitinho", é uma usurpação do direito à intelectualidade originária.

A Ciência sob Ataque do Oportunismo

Um acadêmico indígena, seja ele um mestre em Antropologia, um médico ou um engenheiro carrega consigo a responsabilidade de traduzir saberes. Quando um não-indígena utiliza uma cota de forma fraudulenta, ele não está apenas ocupando uma cadeira; ele está impedindo que um projeto de interculturalidade se concretize e um sonho é morto. Nós indígenas, não precisamos provar nada a ninguém, somos um povo, com mais  de 300 anos de resistência documentada na região amazônica, levando conhecimento lutando para que a nossa história não seja apagada na selva de pedra.

"A universidade precisa do nosso pensamento para deixar de ser eurocêntrica", afirmam coletivos de egressos. A fraude silencia essa possibilidade. O fraudador entra na universidade com o privilégio da base educacional urbana e branca, mas utiliza a "máscara da ancestralidade" apenas para garantir o diploma, sem qualquer compromisso com o retorno social às comunidades. _ Como fica a saúde do nosso povo? Onde estão os engenheiros para criar projetos, Ocas com infraestrutura, para os nosso anciãos, por vezes esquecidos que lutam e resistem para não serem dizimados, com o avanço da tecnologia, disfarçada de boas políticas, nossas terras são tomadas, o berço esplêndido da Floresta, o começo da vida.

O "Índio de Papel" e o Egresso de Luta

 A diferença entre o beneficiário legítimo e o oportunista torna-se evidente no pós-formatura. 

O Egresso Legítimo: Atua como ponte. Leva o Direito para a defesa do território, a Medicina para o cuidado intercultural e a Pedagogia para o fortalecimento das línguas maternas. 

O Fraudador: Utiliza o título para benefício puramente individual, muitas vezes em cargos públicos onde a cota indígena serviu apenas como um atalho na concorrência, sem nunca ter sofrido o racismo ou a exclusão que a lei visa mitigar.

A Vigilância dos Pares: O Papel das Federais

Acadêmicos formados em universidades federais têm sido as vozes mais ativas na cobrança por comissões de heteroidentificação rigorosas. Eles entendem que o ambiente acadêmico é um espaço de poder.

"Nós lutamos para entrar, lutamos para permanecer sem auxílio e lutamos para sermos ouvidos. Ver alguém ocupar esse espaço por pura conveniência é ver o nosso esforço coletivo ser menosprezado pelo sistema", relatam lideranças estudantis.

Conclusão: Por uma Universidade Plural, não Oportunista

O clamor que sai das aldeias e ecoa nos conselhos universitários é por ética identitária. A vaga de cota indígena é um instrumento de soberania. Acadêmicos que já passaram pelo sistema federal reforçam: a ancestralidade não pode ser um item de currículo ativado apenas no momento da inscrição. A universidade só será verdadeiramente federal e democrática quando as vagas destinadas aos povos originários forem ocupadas por quem, de fato, carrega o peso e a honra de sua história. Oportunismo é o avesso da ciência; é a manutenção de privilégios sob uma nova roupagem. O que define o pertencimento para egressos indígenas? 

Autoatribuição: O indivíduo se reconhece como parte de um povo.

Heteroatribuição: O povo e a comunidade reconhecem o indivíduo como seu. 

Trajetória de Luta: A vivência das problemáticas e da cultura indígena de forma contínua, e não episódica.

Este fechamento traz o contraste necessário: enquanto o oportunista usa a "ancestralidade de papel" para subir degraus, a mulher indígena real é barrada pela falta de papéis que comprovem sua existência para o Estado. 

A Invisibilidade das Guerreiras Urbanas

Enquanto o oportunismo acadêmico floresce em gabinetes refrigerados, uma realidade silenciosa e dolorosa acontece nas periferias das grandes cidades. São as mulheres indígenas que, forçadas pela migração, pela busca de sobrevivência ou pela expulsão de seus territórios, vivem um duplo apagamento. Ao cruzarem a fronteira entre a aldeia e a cidade, muitas perdem o acesso a direitos básicos, tornando-se invisíveis para as políticas públicas. Somos julgadas com termos pejorativos, "não somos sem terra".

Para essas mulheres, a faculdade representa o sonho da emancipação e a chance de levar voz ao seu povo. No entanto, o caminho é obstruído por uma burocracia estatal que ignora a fluidez da vida indígena. Muitas dessas estudantes, embora carreguem no rosto e na alma a marca de seus ancestrais, são barradas nos processos de cota por não possuírem o RANI (Registro Administrativo de Nascimento Indígena). 

O RANI como Grade, não como Ponte

Atualmente, a centralização da emissão deste documento pela Funai cria um gargalo perverso. Sem o registro, a mulher indígena em contexto urbano é empurrada para a vala comum da "parda" ou "negra" pelo sistema, perdendo o direito de ocupar a vaga que foi pensada para ela.

"É uma contradição cruel: o Estado exige um papel que ele mesmo dificulta entregar, enquanto fecha os olhos para quem falsifica identidades com facilidade nas redes sociais", desabafam acadêmicas que acompanham esses casos.

Essa barreira documental pune justamente quem mais sofreu com o processo de desterritorialização. Sem o suporte da aldeia próxima e sem o reconhecimento formal do Estado, essas mulheres enfrentam a universidade federal em condições de extrema vulnerabilidade, muitas vezes desistindo do curso por falta de auxílio-permanência — um recurso que, por ironia do destino, acaba sendo drenado por aqueles que fraudam o sistema.

Conclusão: Um Direito de Sangue e História, Não de Burocracia

O "Clamor das Aldeias" é, portanto, um grito por justiça e por humanidade. Combater o oportunismo acadêmico é também lutar para que a burocracia não seja uma arma de exclusão contra as mulheres indígenas urbanas. A universidade federal só cumprirá seu papel social quando a vaga de cota for protegida contra os que a veem como um atalho e garantida para aquelas que, mesmo sem o selo imediato da Funai, resistem e preservam a identidade originária em meio ao asfalto. A vaga pertence a quem tem história para contar, e não a quem tem apenas um interesse a defender. O oportunismo não pode vencer a ancestralidade. 

Sobre a etnia Baré

Falar sobre os Baré é mergulhar em uma história de muita resiliência e transformação no coração da Amazônia. Eles são um dos povos mais emblemáticos da região do Alto Rio Negro e do Rio Xié, no Amazonas, além de estarem presentes também na Venezuela e Colômbia.

No Brasil, a maior concentração está no município de São Gabriel da Cachoeira, conhecido por ser a cidade mais indígena do país.

No Brasil, estima-se que existam cerca de 11.000 a 12.000 Baré (segundo dados da Funasa e ISA).

Em São Gabriel da Cachoeira: A grande maioria dessa população vive neste município. Embora não haja um número "fechado" apenas para a zona urbana, os Baré são uma das etnias mais populosas da região, dividindo o território com os Tukano e os Baniwa.

Em São Gabriel, mais de 90% da população (cerca de 48 mil dos 51 mil habitantes, conforme o Censo 2022) se autodeclara indígena.  A presença Baré é sentida em dois "ambientes" principais:

Sede Urbana: Muitos Baré vivem hoje no núcleo urbano de São Gabriel da Cachoeira, ocupando cargos públicos, atuando no comércio e na liderança de movimentos indígenas (como a FOIRN).

Calha do Rio Negro e Rio Xié: Eles dominam extensas áreas rurais ao longo desses rios, onde mantêm suas comunidades tradicionais e o cultivo da mandioca.

Por que os números variam? É comum encontrar variações nos dados por dois motivos:

Trânsito constante: Muitos indígenas Baré mantêm uma casa na cidade e outra na comunidade (sítio), circulando entre as duas conforme a época do ano ou a necessidade de serviços.

Identidade: Por muito tempo, os Baré foram considerados "índios integrados" (devido à perda da língua original), o que fazia com que alguns não se declarassem nos censos antigos. Hoje, há um forte movimento de reafirmação étnica, o que faz os números subirem a cada novo levantamento.

Historicamente, os Baré pertencem à família linguística Aruak. No entanto, a história deles é marcada por um processo intenso de contato.

A Língua Geral (Nheengatu): Devido à influência das missões jesuítas e do período colonial, a maioria dos Baré deixou de falar sua língua original e passou a adotar o Nheengatu (uma língua derivada do tupi antigo que se tornou a "língua franca" da Amazônia por séculos).

Identidade Forte: Mesmo com a mudança na língua, eles mantêm uma identidade cultural indígena muito viva, preservando rituais, conhecimentos sobre a floresta e sistemas de organização social.

Os Baré são mestres na adaptação ao ecossistema de "águas pretas" do Rio Negro, que é um ambiente de poucos nutrientes.

A base da alimentação é a mandioca, cultivada em roças circulares. Eles possuem um conhecimento milenar sobre as variedades de mandioca e o processamento da farinha e do beiju. São exímios pescadores e conhecedores das frutas silvestres da época.  Produzem cestarias e utensílios de madeira que são verdadeiras obras de arte, muitas vezes utilizando fibras naturais como o tucum e o arumã.

Infelizmente, os Baré sofreram muito durante o ciclo da borracha e com o sistema de "aviamento" (uma forma de exploração por dívidas imposta pelos patrões seringueiros).

Nota: Esse período histórico quase desestruturou sua organização social, mas o povo Baré conseguiu se reorganizar politicamente nas últimas décadas, sendo hoje uma voz ativa no movimento indígena do Rio Negro.

Sobre Potira Baré

Natural da terra mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira ( cabeça do cachorro),  Ahuakuoufeng Melgueiro Rossi, da etnia Baré, é Pedagoga formada pela Universidade do Estado da Bahia ( UNEB) e Especialista em educação a distância pela UNICID, Graduanda em Enfermagem. Aluna de violino do conservatório Lourenzo Fernandez e artesã . Mãe de Hernan e Maya. Casada com Douglas Rossi.



 



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