O voto é individual, mas o resultado é coletivo.
| “Essa escolha não é só sobre candidatos. É sobre o país que estamos escolhendo.” |
Por Diana Holanda
O resultado das urnas no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 me fez parar e pensar. Não apenas como jornalista, mas como cidadã, estudante de Direito e Gestão Pública, continuo acreditando que educação pode abrir portas que durante muito tempo permaneceram fechadas.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva ficou com 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
O placar eleitoral é objetivo. O que ele provoca em cada cidadão, entretanto, pertence a um território muito mais complexo: o da memória, das escolhas e das consequências.
Foi impossível, para mim, não voltar mentalmente a Brasília/DF, e a um período em que acompanhei de perto o ambiente político brasileiro no ano de 2019 e vi um capítulo da historia ser gerado, onde futuramente iria ver muitos pessoas anônimas sofrerem com a fome, pois recursos seriam levados para outra pasta. Voltando para 2025, também voltei às salas de aula, aos corredores das universidades e à experiência de tentar cursar Engenharia Agrícola e Ambiental na Federal ao lado da minha filha, onde fui massacrada por mentes medíocres que pensavam diferente de mim. Aos meus 52 anos, acolhimento zero, o machismo prevalecia, mesmo eu sendo capacitada, mas eu não tinha doutorado, e sempre quando eu falava sobre Amazônia, onde nasci e conheço bem a minha região, percebia o deboche do professor quando não tinha argumentos, falar sobre a sua formação disso e daquilo, mas a verdade é que o meu conhecimento de vida, despertava medo naquela mente irrigada de covardia. Em sala de aula sofri discriminação, onde disseminavam ódio, orquestrado por almas tão pequenas, e por último atentaram contra a minha vida, quanta covardia eu passei por sonhar demais na engenharia. Quem se incomodava tanto com a minha personalidade forte, uma mulher com cursos de Geopolítica, preparação de guerra, mais tão feminina? A mediocridade hoje eu sei. E para não adoecer mentalmente, abrir mão do sonho de ser engenheira e colocar em prática o conhecimento na minha terra natal, levar conhecimento ao povo ribeirinho, saudade da minha querida Amazônia.
Começamos em uma turma de 48 alunos. Poucos permaneceram. Ali, vi dificuldades que não aparecem nas estatísticas quando observamos apenas o número de vagas oferecidas. Vi falta de acolhimento, dificuldades estruturais, conflitos, bullying, machismo e situações que fizeram estudantes desistirem e o pior partindo de professores que tinham o dever de ajudar.
Por isso, quando se fala em universidade pública, não consigo enxergar apenas números.
Enxergo pessoas.
Enxergo a mulher de hoje, que pode tudo aos 54 anos, que decide voltar a estudar e não ser apenas dona de casa, na tradicional família brasileira.
Enxergo o estudante que veio de uma escola pública, ou que depois de muito tempo, chega à universidade carregando não apenas um diploma em construção, mas a esperança de mudar a própria trajetória.
Enxergo também minha filha, já bacharel em Direito, com quatro pós-graduações, dividindo comigo a experiência de entrar em uma área tradicionalmente associada a uma formação de classe média. É por isso que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, para mim, ultrapassa a disputa entre dois nomes. Ela coloca diante do eleitor dois projetos que precisam ser examinados com atenção.
Houve um tempo em que mãe e filha sonharam juntas com a Engenharia. 📐🌱
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O programa de Lula, por sua vez, apresenta propostas de expansão dos institutos federais, ampliação de vagas universitárias e políticas de assistência estudantil voltadas à permanência e conclusão dos cursos.
Não cabe ao jornalista substituir o eleitor.
Cabe mostrar o que está sendo proposto.
Cabe perguntar quanto custa.
Cabe perguntar quem será beneficiado.
Cabe perguntar quem poderá ficar de fora.
Cabe acompanhar o que foi prometido e, depois, cobrar o que efetivamente foi realizado.
Judas, Jesus e a escolha por Barrabás
É nesse ponto que penso na velha história bíblica de Jesus e Judas, mas também em uma terceira figura que talvez seja ainda mais provocadora quando pensamos em democracia: Barrabás.
Segundo o relato dos Evangelhos, diante da possibilidade de libertar Jesus ou Barrabás, Pilatos apresentou a escolha à multidão. A multidão pediu a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus.
Séculos depois, a história continua provocando uma pergunta desconfortável: o que leva uma multidão a escolher um caminho quando acredita estar fazendo a escolha certa?
Não estou comparando candidatos brasileiros a personagens bíblicos. A comparação seria simplista e injusta com uma realidade política muito mais complexa.
A reflexão é outra.
Naquele episódio, uma escolha coletiva produziu uma consequência histórica.
Hoje, também fazemos escolhas coletivas diante das urnas.
E talvez o cenário não seja tão distante quanto parece.
Não porque os brasileiros sejam uma multidão manipulável, nem porque determinado candidato represente automaticamente Barrabás ou Jesus. Mas porque a democracia coloca nas mãos da população uma responsabilidade enorme: escolher entre projetos que produzirão consequências reais na vida de milhões de pessoas.
Quando votamos, não escolhemos apenas um rosto estampado na urna.
Escolhemos prioridades.
Escolhemos como o Estado poderá tratar a educação, a ciência, a tecnologia, a saúde, a assistência social, a segurança, o trabalho e tantas outras áreas.
E, muitas vezes, podemos escolher sem conhecer integralmente aquilo que está sendo colocado em jogo.
É aí que a democracia exige mais do cidadão do que simplesmente votar.
Exige informação.
Exige memória.
Exige capacidade de questionar.
Exige coragem para reconhecer quando alguém que admiramos erra e quando alguém de quem discordamos apresenta uma proposta que merece ser considerada.
Jesus não foi traído apenas por Judas.
Na narrativa bíblica, existe também uma multidão diante de uma escolha.
E talvez essa seja a parte mais incômoda da história: a responsabilidade de uma sociedade não desaparece porque a decisão foi coletiva.
A democracia também funciona assim.
O voto é individual, mas o resultado é coletivo.
A escolha brasileira
É por isso que este segundo turno merece ser observado com atenção.
Não como uma batalha entre santos e pecadores.
Não como uma disputa entre o bem absoluto e o mal absoluto.
E tampouco como uma guerra em que o eleitor precisa odiar quem pensa diferente.
Democracia não é isso.
Democracia é poder escolher, inclusive quando a escolha do outro nos incomoda.
Mas liberdade de escolha não elimina responsabilidade.
Se uma proposta pode alterar o financiamento da educação, o funcionamento das universidades, a pesquisa científica ou as políticas sociais, o cidadão tem o direito de perguntar.
E o jornalista tem o dever de perguntar.
Talvez seja essa a grande lição que este segundo turno oferece.
Não precisamos transformar Lula em Jesus.
Nem Flávio em Judas ou Barrabás.
Precisamos fazer algo muito mais difícil: tirar os candidatos do altar e colocá-los diante da Constituição, do orçamento, dos dados e da população.
Porque políticos passam.
Governos passam.
Campanhas acabam.
Mas as consequências das políticas públicas permanecem na vida das pessoas.
Eu continuo acreditando na educação porque experimentei suas portas abertas e também suas portas estreitas.
Continuo acreditando na universidade porque voltei a ser estudante quando muita gente provavelmente imaginaria que eu deveria estar fazendo outra coisa.
E continuo acreditando na democracia porque, mesmo quando o resultado das urnas nos machuca, ainda temos o direito de olhar para o país e perguntar:
Que Brasil queremos construir quando a campanha terminar?
Talvez essa seja a verdadeira prova desta eleição.
Não descobrir quem será tratado como Jesus, Judas ou Barrabás.
Mas descobrir se nós, brasileiros, conseguiremos permanecer cidadãos quando terminar a contagem dos votos.
"A democracia não exige que pensemos igual. Exige que continuemos capazes de pensar".



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